Nesta lição, vamos focar em como a microbiota intestinal afeta os neurotransmissores e a saúde mental.
Discutiremos quatro neurotransmissores principais:
✔ Serotonina, que regula o humor e o sono.
✔ Dopamina, responsável pela motivação e pelo prazer.
✔ GABA, que tem um efeito calmante e ajuda a controlar o stress.
✔ Glutamato, que influencia a memória e a concentração.
Além disso, examinaremos quatro transtornos de saúde mental nos quais o papel do microbioma é particularmente notável: esquizofrenia, depressão, transtornos de ansiedade e autismo.
Sabia que o seu intestino e o seu cérebro estão ligados e comunicam constantemente entre si?
Essa conexão é chamada de eixo intestino-cérebro e funciona de várias maneiras: através dos nervos, do sistema imunológico e de substâncias químicas produzidas pelas bactérias intestinais. Um dos componentes mais importantes desse eixo é o nervo vago, que funciona como uma «autoestrada de informação», transmitindo sinais entre o intestino e o cérebro.
O intestino e o cérebro também influenciam o sistema imunológico. As bactérias no intestino ajudam a regular a função imunológica, que, por sua vez, pode afetar a atividade cerebral. Além disso, certos compostos químicos — como ácidos gordos de cadeia curta (AGCC) e neurotransmissores — são produzidos por micróbios intestinais e têm um impacto direto no humor e nas funções cognitivas (Mhanna et al., 2024).
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Como os desequilíbrios da microbiota intestinal afetam a saúde mental?
Pesquisas mostram que alterações na composição da microbiota intestinal podem contribuir para o desenvolvimento de vários transtornos mentais, como depressão, ansiedade, autismo e esquizofrenia. Estudos em animais demonstraram que mudanças na microbiota intestinal podem influenciar o comportamento e as emoções. Cientistas estão agora a explorar se melhorar a composição da microbiota poderia ajudar a tratar essas condições (Mhanna et al., 2024).
Há cada vez mais evidências de que um intestino saudável pode contribuir para a saúde mental. Probióticos, prebióticos, transplante de microbioma fecal (FMT) e intervenções alimentares adequadas estão a ser testados como formas de melhorar a função cerebral. Por exemplo, estudos realizados por Kang et al. descobriram que crianças com autismo que receberam terapia probiótica apresentaram melhorias tanto na função intestinal quanto no comportamento — e esses efeitos duraram até dois anos após o término do tratamento (Mhanna et al., 2024).
O que é disbiose intestinal?
Num corpo saudável, a microbiota intestinal está em equilíbrio – um estado conhecido como eubiose. Nesta condição, as bactérias auxiliam na digestão, protegem contra infeções e ajudam a regular a função imunológica. No entanto, quando esse equilíbrio é perturbado, ocorre uma condição chamada disbiose, que significa uma composição anormal da microbiota intestinal. Isso pode levar a uma variedade de problemas de saúde, incluindo:
- Aumento da permeabilidade intestinal (comumente referido como «intestino permeável»),
- Inflamação crónica,
- Danos à barreira hematoencefálica, que permite que substâncias nocivas cheguem ao cérebro (Mhanna et al., 2024).
Pesquisadores descobriram que a disbiose intestinal pode estar associada a várias doenças, como diabetes, obesidade, asma e distúrbios dos sistemas digestivo, cardiovascular e nervoso. Além disso, evidências crescentes mostram que pessoas que sofrem de depressão, autismo, ansiedade ou esquizofrenia também costumam apresentar problemas gastrointestinais. No entanto, ainda não está claro exatamente como as alterações no microbioma contribuem para o desenvolvimento dessas condições (Mhanna et al., 2024).
A microbiota intestinal continua a ser um campo fascinante e ativamente estudado, que pode ajudar-nos a compreender como apoiar a saúde mental através dos cuidados com o intestino. Os cientistas enfatizam cada vez mais que a saúde intestinal desempenha um papel fundamental na função cerebral, na regulação do humor e no desempenho cognitivo (Puri et al., 2023).
5.1. Como é que o intestino e o cérebro comunicam?
O intestino e o cérebro comunicam-se através de vários mecanismos principais:
Nervo vago – esta é a principal via que liga o intestino ao cérebro. Ele transmite sinais sobre o estado do sistema digestivo e influencia o humor e as respostas emocionais. Estudos demonstraram que a estimulação do nervo vago pode reduzir os sintomas de depressão e ansiedade (Puri et al., 2023). As células neuropodes, um tipo de célula enteroendócrina especializada, desempenham um papel fundamental na transmissão rápida de sinais ao cérebro através do glutamato. Isto permite que o corpo responda quase instantaneamente a estímulos relacionados com o intestino (Chen et al., 2021).
Sistema hormonal – o microbioma intestinal influencia a produção de hormonas como o cortisol (a hormona do stress), bem como a grelina e a leptina, que regulam a fome e a saciedade (Puri et al., 2023). Certas bactérias intestinais também afetam os níveis de serotonina, regulando a via metabólica do triptofano. O consumo de cepas bacterianas específicas pode aumentar a produção de serotonina, ativando a enzima triptofano hidroxilase 1 (TPH1) nas células enterocromafins (Chen et al., 2021).
Sistema imunológico – as bactérias intestinais modulam as respostas inflamatórias no corpo, o que pode influenciar o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas e distúrbios de humor (Puri et al., 2023). O microbioma intestinal pode ativar o sistema imunológico por meio de lipopolissacarídeos (LPS), levando ao aumento da permeabilidade da barreira hematoencefálica e à inflamação elevada no sistema nervoso central (Chen et al., 2021).
- Produção de neurotransmissores – as bactérias intestinais produzem substâncias químicas essenciais para o funcionamento do cérebro, tais como:
- Serotonina – conhecida como o «hormônio da felicidade», cerca de 90% dela é produzida no intestino (Puri et al., 2023). A sua síntese pode ser estimulada por espécies de Clostridia através da liberação de metabólitos específicos (Chen et al., 2021).
- Dopamina – responsável pela motivação e pela sensação de recompensa (Puri et al., 2023). As bactérias Staphylococcus podem converter o precursor L-DOPA em dopamina usando a enzima descarboxilase de aminoácidos aromáticos (Chen et al., 2021).
- GABA – influencia os níveis de stress e relaxamento (Puri et al., 2023). A sua produção no intestino é apoiada por bactérias como Bifidobacterium, Parabacteroides e Eubacterium (Chen et al., 2021).
A comunicação deficiente entre o intestino e o cérebro pode levar a problemas de concentração, depressão e até mesmo doenças neurodegenerativas (Puri et al., 2023).
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5.2. A microbiota intestinal e o seu papel na função cerebral
O microbioma refere-se aos milhares de milhões de bactérias que residem nos nossos intestinos. Estes microrganismos desempenham um papel fundamental em:
- Produção de neurotransmissores – certas bactérias (por exemplo, Lactobacillus e Bifidobacterium) produzem serotonina, enquanto Bacillus produz dopamina. Elas não só sintetizam neurotransmissores, mas também regulam o seu transporte para o cérebro. Um exemplo é a triptamina, produzida por Clostridium sporogenes e Ruminococcus gnavus, que estimula a liberação de serotonina no intestino e afeta indiretamente o sistema nervoso (Chen et al., 2021).
- Proteção contra a inflamação – as bactérias benéficas reduzem o stress oxidativo e ajudam a combater doenças neurodegenerativas. Em particular, os ácidos gordos de cadeia curta (AGCC), como o butirato, podem reduzir a neuroinflamação ao atuarem nas células microgliais e fortalecerem a barreira hematoencefálica (Chen et al., 2021).
- Regulação do humor – desequilíbrios no microbioma podem levar à ansiedade e depressão. Pesquisas mostram que o microbioma afeta os níveis de GABA no cérebro. Bifidobacterium e Lactobacillus sintetizam GABA, que modula a excitabilidade neuronal e tem um efeito calmante (Chen et al., 2021).
- Regulação do stress – as bactérias intestinais podem diminuir os níveis de cortisol, reduzindo o risco de depressão e distúrbios de ansiedade. Certas bactérias, como a Bacteroides fragilis, desempenham um papel crucial no equilíbrio da resposta do corpo ao stress, modulando os recetores GABAérgicos no intestino (Chen et al., 2021).
5.3. Alterações do microbioma na esquizofrenia, depressão e transtornos de ansiedade
Estudos mostram que indivíduos com esquizofrenia, depressão e transtornos de ansiedade têm uma composição diferente de bactérias intestinais em comparação com indivíduos saudáveis.
Alterações na microbiota intestinal podem afetar a função cerebral por meio da produção de neurotransmissores, inflamação e integridade da barreira hematoencefálica. Pesquisadores descobriram que certas cepas bacterianas são mais prevalentes em pessoas com essas condições, enquanto outras são menos comuns.
A tabela abaixo apresenta as alterações mais significativas na microbiota intestinal observadas em pacientes com esquizofrenia, depressão e transtornos de ansiedade (Mhanna et al., 2024).
Tabela: Alterações do microbioma em perturbações mentais. Baseado em Mhanna et al. (2024).
| Perturbação | Aumentado | Diminuído | Impacto na saúde mental |
|---|---|---|---|
| Esquizofrenia | Enterococcus faecium, Lactobacillus fermentum, Cronobacter sakazakii, Alkaliphilus oremlandii | Ruminococcus, Roseburia | Redução da produção de neurotransmissores (por exemplo, GABA, serotonina), aumento da inflamação, maior permeabilidade da barreira hematoencefálica |
| Depressão | Bacteroides, Alistipes, Oscillibacter | Faecalibacterium, Coprococcus, Bifidobacterium | Aumento da produção de citocinas pró-inflamatórias, diminuição dos SCFAs, níveis mais baixos de serotonina |
| Transtornos de ansiedade | Escherichia/Shigella, Enterobacteriaceae, Bacteroides | Prevotella, Lachnospiraceae, Ruminococcaceae | Inflamação elevada, produção reduzida de neurotransmissores calmantes (por exemplo, GABA), níveis elevados de cortisol |
A microbiota intestinal pode ter um impacto significativo na função cerebral e no desenvolvimento de perturbações mentais. Em indivíduos com esquizofrenia, depressão e perturbações de ansiedade, há uma perturbação no equilíbrio entre as bactérias intestinais benéficas e prejudiciais. Esse desequilíbrio pode levar à inflamação, à produção prejudicada de neurotransmissores e ao enfraquecimento da barreira hematoencefálica. Pesquisas adicionais podem ajudar a desenvolver novos tratamentos destinados a melhorar a saúde mental através da regulação da microbiota intestinal.
Tabela: O que os pacientes devem saber sobre o microbioma intestinal?
| Lembre-se de informar ao seu cliente… | Por que é que isso é importante |
|---|---|
| Intestino saudável = melhor humor e menos ansiedade. | A microbiota intestinal produz neurotransmissores como a serotonina e o GABA, que afetam o bem-estar emocional. |
| Evite alimentos processados e açúcar em excesso. | Os alimentos altamente processados podem aumentar a inflamação intestinal e afetar negativamente o microbioma. |
| Inclua probióticos e prebióticos na dieta. | Probióticos (iogurte, kefir, vegetais fermentados) e prebióticos (fibra vegetal) ajudam a restaurar e nutrir as bactérias intestinais saudáveis. |
| Tenha um sono regular e de qualidade. | A falta de sono perturba o equilíbrio da microbiota intestinal e aumenta os níveis de stress. |
| Controle o stress crónico – encontre maneiras de relaxar. | O stress enfraquece o microbioma e aumenta o cortisol, o que pode agravar os sintomas de depressão e ansiedade. |
| Mantenha-se fisicamente ativo. | A prática regular de exercício físico contribui para a saúde da microbiota intestinal e ajuda a regular os níveis de neurotransmissores. |
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5.4. Como a dieta afeta o microbioma e o cérebro?
A nossa alimentação tem um grande impacto na saúde intestinal e, consequentemente, no funcionamento do cérebro. Uma alimentação saudável pode melhorar a memória, a concentração e o humor. O que comemos influencia as bactérias presentes no nosso intestino e, por sua vez, essas bactérias podem afetar o nosso humor e a nossa saúde mental.
Bom para o intestino e o cérebro:
✅ Fibras (vegetais, frutas, produtos integrais) – apoiam o crescimento de bactérias benéficas.
✅ Probióticos (iogurte, kefir, alimentos fermentados) – fornecem bactérias intestinais benéficas.
✅ Prebióticos (alho, cebola, banana) – nutrem as bactérias probióticas e melhoram o microbioma intestinal.
✅ Ácidos gordos ómega 3 (peixe, sementes de linhaça) – protegem os neurónios e melhoram a memória.
Efeitos negativos no intestino e no cérebro (em excesso):
🚫 Açúcares simples e alimentos processados – perturbam o equilíbrio da microbiota e podem promover inflamação.
🚫 Gorduras trans – prejudicam a função cognitiva e aumentam o risco de depressão.
🚫 Consumo excessivo de álcool – danifica a microbiota intestinal e afeta negativamente a memória (Puri et al., 2023).
Um microbioma intestinal desequilibrado pode levar ao aumento da produção de citocinas pró-inflamatórias, que afetam negativamente a função cerebral e aceleram os processos neurodegenerativos.
Intestino saudável = cérebro saudável!
O eixo intestino-cérebro desempenha um papel fundamental na memória, no humor e na concentração, e manter um microbioma intestinal equilibrado pode ajudar a prevenir doenças neurodegenerativas.
Uma dieta rica em fibras, probióticos e gorduras saudáveis é a melhor forma de apoiar os sistemas digestivo e nervoso!
| Referências |
| Briguglio, M., Dell’Osso, B., Panzica, G., Malgaroli, A., Banfi, G., Zanaboni Dina, C., Galentino, R., & Porta, M. (2018). Dietary neurotransmitters: A narrative review on current knowledge. Nutrients, 10(5), 591. https://doi.org/10.3390/nu10050591 Mhanna, A., Martini, N., Hmaydoosh, G., Hamwi, G., Jarjanazi, M., Zaifah, G., Kazzazo, R., Haji Mohamad, A., & Alshehabi, Z. (2024). The correlation between gut microbiome and both neurotransmitters and mental disorders: A narrative review. Medicine (Baltimore), 103(5), e37114. https://doi.org/10.1097/MD.0000000000037114 Puri, S., Shaheen, M., & Grover, B. (2023). Nutrition and cognitive health: A life course approach. Frontiers in Public Health, 11, 1023907. https://doi.org/10.3389/fpubh.2023.1023907 World Health Organization. (2019). Redução do risco de declínio cognitivo e demência: diretrizes da OMS. Genebra: Organização Mundial da Saúde. |
