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Módulo 3

1. Transtornos psiquiátricos influenciados pela nutrição

O papel da nutrição na psiquiatria

Pesquisas indicam uma forte ligação entre nutrição e saúde mental. Acredita-se que uma dieta adequada pode desempenhar tanto um papel preventivo – protegendo contra doenças – quanto um papel de apoio no tratamento de vários transtornos mentais, como depressão, esquizofrenia ou transtornos de ansiedade (Grajek et al., 2022).

Dieta e doenças mentais

As doenças mentais são um problema de saúde grave, que afeta a vida diária de milhões de pessoas em todo o mundo. As condições mais comuns incluem depressão, esquizofrenia, transtorno bipolar e transtornos de ansiedade. O seu tratamento baseia-se principalmente na farmacoterapia e na psicoterapia; no entanto, os investigadores estão cada vez mais a destacar a importância da dieta como um elemento de apoio na terapia. A secção seguinte fornecerá uma visão geral destes transtornos. Se desejar explorar descrições detalhadas e os critérios de diagnóstico utilizados pelos médicos, recomenda-se consultar a CID-11 (Classificação Internacional de Doenças) ou o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais).

As doenças mentais são distúrbios que afetam a maneira como uma pessoa pensa, sente e se comporta. Elas podem prejudicar o funcionamento diário, como estudar, trabalhar ou manter relacionamentos. Indivíduos que lutam contra esses problemas podem sentir-se tristes, ansiosos, ter dificuldade para se concentrar ou dormir e, às vezes, achar difícil distinguir a realidade da imaginação. Esses distúrbios não são um sinal de «fraqueza» — são condições de saúde reais que podem e devem ser tratadas. Quanto mais cedo forem reconhecidos, maiores serão as chances de um apoio eficaz e de uma melhoria na qualidade de vida.

Depressão

A depressão é um dos transtornos mentais mais comuns, caracterizado por um humor baixo prolongado, falta de energia e perda de interesse nas atividades diárias. Pessoas com depressão também podem apresentar distúrbios do sono, dificuldades de concentração e alterações no apetite.
Os investigadores estão cada vez mais a estudar o impacto da dieta nos sintomas depressivos, destacando a importância dos nutrientes que apoiam a função cerebral. Os ácidos gordos ómega 3, as vitaminas B e os antioxidantes são de particular interesse, pois podem apoiar a função dos neurotransmissores e reduzir a inflamação no corpo. Em alguns estudos, as dietas mediterrânica e cetogénica mostraram efeitos benéficos no alívio dos sintomas da depressão, embora sejam necessárias mais pesquisas nesta área. Estes nutrientes e dietas serão discutidos com mais detalhes posteriormente neste módulo.

Esquizofrenia

A esquizofrenia é um distúrbio mental grave que afeta o pensamento, as emoções e a percepção da realidade. Os seus sintomas incluem alucinações (por exemplo, ouvir vozes), delírios, problemas de concentração e dificuldades no funcionamento social.

Nos últimos anos, os investigadores começaram a explorar o papel da dieta no tratamento da esquizofrenia, particularmente em relação ao metabolismo da glicose e à função mitocondrial no cérebro, ou seja, como as células cerebrais produzem energia. A dieta cetogénica faz com que o corpo obtenha energia principalmente da gordura, em vez do açúcar (hidratos de carbono). Isso resulta na produção dos chamados corpos cetónicos, que substituem a glicose como combustível para o cérebro. Desta forma, a dieta pode apoiar a estabilização da função cerebral e ajudar a reduzir certos sintomas da esquizofrenia. Além disso, seguir uma dieta rica em antioxidantes pode ajudar a proteger as células nervosas contra danos. O papel desta dieta será discutido com mais detalhes posteriormente neste módulo.

Pressão da perturbação bipolar (BD)

A perturbação bipolar é caracterizada por episódios alternados de depressão e mania (excitação excessiva, hiperatividade e, muitas vezes, tomada de decisões impulsivas). Esta condição afeta significativamente o funcionamento diário e requer tratamento farmacológico a longo prazo.

Os investigadores observaram que os indivíduos com TB frequentemente apresentam distúrbios metabólicos e dificuldades em manter níveis estáveis de glicose no sangue. Como resultado, surgiram hipóteses sugerindo que uma dieta cetogénica ou baixa em hidratos de carbono pode ajudar a estabilizar o humor, melhorando a função mitocondrial e regulando os níveis de neurotransmissores. Embora a investigação nesta área ainda esteja em fase inicial, os resultados sugerem que uma dieta bem equilibrada pode ser um elemento útil no apoio à terapia.

Transtornos de ansiedade

Os transtornos de ansiedade incluem várias condições, como ansiedade crónica, ataques de pânico e fobias. As pessoas que sofrem desses transtornos frequentemente apresentam preocupação persistente, tensão muscular e distúrbios do sono.
No contexto dos transtornos de ansiedade, os investigadores estão cada vez mais focados no papel da microbiota intestinal e na sua influência na função cerebral (o eixo intestino-cérebro, que se refere à conexão entre o intestino e o cérebro, o que significa que o que comemos pode afetar como nos sentimos). Uma dieta rica em probióticos (por exemplo, iogurte natural) e em nutrientes que apoiam a produção de serotonina (por exemplo, alimentos ricos em triptofano) pode ter um efeito benéfico na redução da ansiedade. Um número crescente de estudos sugere que uma dieta saudável pode apoiar a estabilidade emocional, embora não deva ser considerada um substituto para o tratamento farmacológico.

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O impacto da alimentação na saúde mental

Como mencionado anteriormente, existe uma ligação entre a alimentação e a saúde mental. Por exemplo, o excesso de peso corporal e uma alimentação de má qualidade — como alimentos ultraprocessados, altamente calóricos e pobres em nutrientes essenciais — são considerados fatores significativos que influenciam o bem-estar mental (Grajek et al., 2022).

Fonte: Grajek et al. (2022)

Os hábitos alimentares modernos contribuem para o aumento de peso, muitas vezes acompanhado por deficiências nutricionais. Apesar do aumento da ingestão de quilocalorias, o consumo de micro e macronutrientes essenciais — como vitaminas B e magnésio, que são essenciais para o bom funcionamento do sistema nervoso — continua insuficiente. Além disso, tem-se observado um declínio no consumo de vegetais e produtos à base de cereais ricos em fibras. Estes efeitos negativos são ainda mais intensificados por fatores como o tabagismo, a baixa atividade física e o consumo excessivo de álcool, que aumentam o risco de transtornos mentais, incluindo a depressão (Grajek et al., 2022).

O impacto dos componentes bioativos dos alimentos na saúde mental

Um número crescente de estudos mostra que certos compostos bioativos presentes nos alimentos podem influenciar a função cerebral e o bem-estar geral. Os compostos bioativos são substâncias que não são essenciais para a sobrevivência, mas têm efeitos benéficos para a saúde – podem melhorar o humor, reduzir o stress e até mesmo ajudar no tratamento de condições como depressão ou esquizofrenia. Eles atuam de várias maneiras: afetando os neurotransmissores (substâncias químicas no cérebro que nos ajudam a sentir-nos calmos e bem), reduzindo a inflamação (um estado que pode prejudicar o funcionamento do cérebro e piorar o humor) e auxiliando o funcionamento do intestino, que está ligado ao cérebro. Esses compostos são encontrados em alimentos naturais, como vegetais, frutas, nozes e peixes (Grajek et al., 2022).

A tabela abaixo apresenta exemplos de compostos bioativos que devem ser considerados ao planear a dieta de uma pessoa com dificuldades psicológicas

Nome do composto bioativo Mecanismo de ação Fontes alimentares
Ácidos gordos ómega 3 Melhora a função cerebral, apoia os neurotransmissores, reduz a inflamação Peixes gordos (salmão, cavala, sardinha), nozes, sementes de linhaça
Polifenóis Protege os neurónios contra danos, melhora o fluxo sanguíneo para o cérebro e tem efeitos anti-inflamatórios Chocolate preto, bagas, uvas, chá verde, cacau
Triptofano (aminoácido) Precursor da serotonina («hormona da felicidade»), melhora o humor e ajuda a dormir Bananas, ovos, peru, leite, nozes, sementes de abóbora
Magnésio (mineral) Apoia o funcionamento do sistema nervoso, reduz o stress Nozes, sementes de abóbora, produtos integrais, cacau, espinafre
Probióticos Apoia a saúde intestinal, que influencia a função cerebral (eixo intestino-cérebro – a conexão entre o intestino e o cérebro) Kefir, iogurte natural, alimentos fermentados
Vitaminas B (B6, B9, B12) Melhora a função cerebral, apoia a produção de neurotransmissores Carne, ovos, leguminosas, produtos integrais, vegetais verdes
Zinco (mineral) Apoia o funcionamento do sistema nervoso, tem efeitos anti-inflamatórios Carne bovina, nozes, sementes de abóbora, leguminosas, ostras
Antioxidantes (por exemplo, vitaminas C, E, carotenóides) Protege as células cerebrais do stress oxidativo, que pode contribuir para distúrbios mentais Pimentos, frutas cítricas, cenouras, nozes, azeite
S-adenosilmetionina (SAMe) Ajuda as células cerebrais a funcionar corretamente, melhora o humor Carne, ovos, produtos integrais
N-acetilcisteína (NAC) Anti-inflamatório, apoia a regeneração das células nervosas Nozes, sementes, carne, ovos

Fonte: Grajek et al. (2022)

O papel da alimentação no tratamento de indivíduos com problemas de saúde mental é crucial, pois a nutrição influencia diretamente o funcionamento do cérebro e o bem-estar mental geral. Inúmeros estudos confirmam que maus hábitos alimentares — particularmente o consumo de alimentos ultraprocessados — podem aumentar o risco de depressão, ansiedade e outros transtornos. Em contrapartida, uma alimentação bem equilibrada e rica em nutrientes essenciais pode ter um efeito protetor e auxiliar no processo de tratamento.

Embora a farmacoterapia e a psicoterapia continuem a ser os pilares do tratamento da saúde mental, um número crescente de estudos sugere que uma dieta adequada pode ajudar no progresso terapêutico e melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Para trabalhar de forma eficaz com indivíduos que enfrentam desafios de saúde mental, é importante compreender como a dieta afeta a saúde mental e estar familiarizado com estratégias nutricionais específicas que apoiam a terapia.

É essencial lembrar, no entanto, que a dieta nunca deve substituir o tratamento farmacológico. Quaisquer alterações na dieta devem ser feitas sob a supervisão de um médico e um nutricionista para garantir a segurança e a eficácia.

Nos módulos seguintes, exploraremos intervenções alimentares detalhadas, deficiências nutricionais comuns e erros alimentares frequentes cometidos pelos pacientes. Recomendamos que continue a ler para expandir os seus conhecimentos e apoiar melhor as pessoas que lidam com transtornos de saúde mental.

ATIVIDADE INTERATIVA 23

Bibliography
Grajek, M., Krupa-Kotara, K., Białek-Dratwa, A., Sobczyk, K., Grot, M., Kowalski, O., & Staśkiewicz, W. (2022). Nutrition and mental health: A review of current knowledge about the impact of diet on mental health. Frontiers in Nutrition, 9, 943998. https://doi.org/10.3389/fnut.2022.943998 Bhave, V. M., Oladele, C. R., Ament, Z., Kijpaisalratana, N., Jones, A. C., Couch, C. A., Patki, A., Garcia Guarniz, A. L., Bennett, A., Crowe, M., Irvin, M. R., & Kimberly, W. T. (2024). Associations between ultra-processed food consumption and adverse brain health outcomes. Neurology, 102(11), e209432. https://doi.org/10.1212/WNL.0000000000209432 Contreras-Rodriguez, O., Reales-Moreno, M., Fernández-Barrès, S., Cimpean, A., Arnoriaga-Rodríguez, M., Puig, J., Biarnés, C., Motger-Albertí, A., Cano, M., & Fernández-Real, J. M. (2023). Consumption of ultra-processed foods is associated with depression, mesocorticolimbic volume, and inflammation. Journal of Affective Disorders, 335, 340–348. https://doi.org/10.1016/j.jad.2023.05.009

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