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Módulo 2

3. Compreender o stress: perspectivas biológicas e psicológicas

O stress é uma resposta natural do corpo a desafios ou ameaças.

De uma perspetiva biológica, pode ser descrito como um mecanismo adaptativo que permite ao corpo responder às mudanças no ambiente. Este processo é regulado pelos sistemas nervoso e endócrino, que preparam o corpo para a ação através da resposta de luta ou fuga. Os elementos-chave neste processo incluem:

  • O sistema nervoso simpático, que ativa o corpo para responder.
  • O eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), que controla a liberação de hormônios do estresse, como o cortisol e a adrenalina. Essa parte do sistema endócrino ajuda o corpo a lidar com o estresse (Lu, Wei & Li, 2021).

A psicologia encara o stress como uma experiência subjetiva relacionada com exigências ambientais que excedem as capacidades de enfrentamento do indivíduo. Existem muitas teorias sobre o stress, mas uma das mais conhecidas é a teoria do stress desenvolvida por Richard S. Lazarus e Susan Folkman. De acordo com Lazarus e Folkman, o stress é uma interação dinâmica entre o indivíduo e o ambiente. Este modelo inclui duas fases principais de avaliação:

Avaliação primária – o indivíduo avalia se a situação é:

  • Neutro – não tem impacto no bem-estar da pessoa.
  • Positivo – pode trazer benefícios ou novas oportunidades.
  • Negativo – a situação é percebida como uma ameaça, desafio ou dano/perda:
  • Ameaça – a situação pode levar a danos ou perdas futuras (por exemplo, medo de um exame que pode afetar o sucesso académico).
  • Desafio – a situação exige esforço e mobilização de recursos, mas oferece uma oportunidade de crescimento e desenvolvimento (por exemplo, participar numa competição que pode melhorar as competências).
  • Dano/Perda – a pessoa já sofreu danos ou consequências negativas (por exemplo, perda do emprego, separação, morte de um ente querido).

2. Avaliação secundária – o indivíduo avalia os seus recursos, incluindo:

  • Apoio social disponível,
  • Possibilidades para resolver o problema,
  • Habilidades adaptativas (Obbarius et al., 2021).

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Lidar com o stress refere-se a ações conscientes e inconscientes realizadas para reduzir a tensão causada pelo stress. Pode incluir tanto esforços para resolver problemas quanto estratégias para regular as emoções.

1. Estratégias para lidar com a situação – os indivíduos utilizam vários mecanismos para gerir os níveis de stress. Existem duas formas principais de lidar com o stress:

  1. resolvendo o problema que causou o stress, ou
  1. acalmando-se e controlando a sua resposta emocional.
  • Lidagem focada no problema – esta estratégia envolve tomar medidas para resolver a situação estressante ou mudar a sua causa.
  • Isso inclui identificar o problema, analisar possíveis soluções e tomar medidas para reduzir o stress.
  • Exemplo: Uma pessoa que se sente stressada antes de um exame prepara-se estudando e organizando os seus materiais.
  • Lidando com as emoções – essa estratégia envolve controlar as emoções relacionadas à situação estressante, sem mudar diretamente o problema em si.
  • Concentra-se na redução de emoções negativas, como ansiedade ou frustração, utilizando técnicas de relaxamento ou reinterpretando a situação.
  • Exemplo: Uma pessoa que passou por uma situação difícil pratica técnicas de respiração, medita ou conversa com entes queridos para obter apoio emocional.

A tabela abaixo lista os principais neurotransmissores envolvidos na resposta do corpo ao stress

Neurotransmissor Descrição
Adrenalina e noradrenalina Sintetizado pelas glândulas supra-renais e pelo sistema nervoso simpático. Prepara o corpo para a resposta de luta ou fuga, aumentando a frequência cardíaca, a pressão arterial e os níveis de glicose no sangue.
Dopamina Responsável pela motivação, recompensa e sensação de satisfação. Sob stress, os seus níveis podem aumentar ou diminuir, afetando o humor e o comportamento.
Serotonina Regula o humor, o sono e o apetite. O stress pode diminuir os seus níveis, aumentando o risco de depressão e ansiedade.
GABA (Gamma-Aminobutyric Acid) O principal neurotransmissor inibidor, que reduz a atividade do sistema nervoso. Níveis baixos de GABA durante o stress levam ao aumento da tensão e da excitabilidade.
Glutamate O principal neurotransmissor excitatório, que aumenta a atividade neuronal. A hiperativação sob stress pode levar à neurotoxicidade e a problemas cognitivos.

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Referências
Obbarius, N., Fischer, F., Liegl, G., Obbarius, A., & Rose, M. (2021). A modified version of the transactional stress concept according to Lazarus and Folkman was confirmed in a psychosomatic inpatient sample. Frontiers in Psychology, 12, 584333. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2021.584333
Lu, S., Wei, F., & Li, G. (2021). The evolution of the concept of stress and the framework of the stress system. Cell Stress, 5(6), 76–85. https://doi.org/10.15698/cst2021.06.250
Knezevic, E., Nenic, K., Milanovic, V., & Knezevic, N. N. (2023). The Role of Cortisol in Chronic Stress, Neurodegenerative Diseases, and Psychological Disorders. Cells, 12(23), 2726. https://doi.org/10.3390/cells12232726

O stress é um fator significativo que influencia o comportamento humano, incluindo os hábitos alimentares.
Afeta as escolhas alimentares tanto por meio de mecanismos biológicos quanto de mudanças comportamentais. Pesquisas demonstraram que o stress pode perturbar os comportamentos alimentares normais, muitas vezes levando ao aumento do consumo de alimentos não saudáveis e à redução da ingestão de alimentos nutritivos (Hill et al., 2022). Este módulo examina a relação entre stress e hábitos alimentares, incorporando descobertas de estudos recentes e meta-análises.

Como o stress afeta o apetite?

O stress é comum na vida quotidiana e pode influenciar a saúde, incluindo alterações no apetite. Um estudo analisou como o stress agudo afeta o apetite em homens saudáveis e não obesos durante o jejum.
O stress agudo refere-se a uma reação repentina e de curta duração a uma situação difícil, como falar em público ou resolver um problema matemático complexo.
Na experiência, os participantes realizaram tarefas estressantes e, em seguida, viram imagens de alimentos enquanto a atividade cerebral era registrada. Os resultados mostraram que o estresse aumentava a atividade do sistema nervoso, mas, ao mesmo tempo, suprimia o apetite. Esse efeito estava relacionado a alterações na parte frontal do cérebro (conhecida como polo frontal).
Essas descobertas sugerem que o stress pode reduzir a sensação de fome, especialmente quando está relacionado à antecipação de um evento difícil (Nakamura et al., 2020).

Para compreender melhor este fenómeno, os investigadores realizaram uma meta-análise de vários estudos científicos com o objetivo de estimar a força da relação entre o stress e a alimentação em adultos saudáveis e identificar fatores que poderiam modificar essa associação. A análise incluiu apenas estudos nos quais o stress foi claramente definido como um evento ambiental negativo (em vez de um estado emocional) e que avaliaram comportamentos alimentares não relacionados a distúrbios alimentares.

The results showed a small but statistically significant relationship between stress and overall food intake. Stress was associated with an increase in the consumption of unhealthy foods, while simultaneously reducing the intake of healthy foods. This suggests that under stress, people are more likely to choose high-calorie foods rich in sugar and fat, while cutting back on foods considered beneficial for health.

A análise dos potenciais fatores moderadores revelou que a restrição alimentar era o único moderador significativo. Os indivíduos que seguiam uma abordagem restritiva à alimentação respondiam de forma diferente ao stress, particularmente em termos de consumo de alimentos não saudáveis.

Embora o efeito do stress nos hábitos alimentares seja pequeno, as suas consequências podem ser importantes para a saúde pública. O aumento da ingestão de alimentos não saudáveis, combinado com a redução do consumo de opções saudáveis, pode, ao longo do tempo, contribuir para o desenvolvimento de doenças metabólicas e outros problemas de saúde. São necessárias mais pesquisas para identificar os fatores que influenciam essa relação, especialmente aqueles que diferenciam a ingestão de alimentos saudáveis e não saudáveis (Hill et al., 2022).

As pessoas que experimentavam stress com mais frequência e passavam por eventos negativos na vida tinham desejos mais intensos por alimentos saborosos, mas pouco saudáveis. Também tinham mais dificuldade em controlar a quantidade de comida que consumiam. Isso sugere que alguns indivíduos são mais vulneráveis aos efeitos do stress no comportamento alimentar.

Além disso, o estudo descobriu que o stress influenciava os hábitos alimentares mesmo a curto prazo. Nos dias em que os adolescentes se sentiam mais stressados do que o habitual, eram mais propensos a comer em resposta a emoções difíceis. Por outras palavras, não é apenas o nível geral de stress na vida de uma pessoa que importa — as flutuações diárias nos níveis de stress também podem afetar as escolhas alimentares.

Os resultados mostram que o stress pode levar a hábitos alimentares pouco saudáveis nos jovens. Essa relação pode variar dependendo se examinamos o nível geral de stress de uma pessoa ou as mudanças diárias de curto prazo. São necessárias mais pesquisas para compreender melhor como o stress afeta o comportamento alimentar e por que algumas pessoas são mais sensíveis aos seus efeitos do que outras (Hsu & Raposa, 2020).

Por que algumas pessoas comem mais quando estão sob stress, enquanto outras comem menos?

Nem todos reagem ao stress da mesma forma. Algumas pessoas – os chamados «comedores emocionais» – tendem a comer mais, especialmente alimentos pouco saudáveis, para melhorar o seu humor. Outras perdem o apetite quando estão stressadas.

Pesquisas sugerem que a hormona grelina pode desempenhar um papel fundamental nessa diferença. Pessoas que apresentam aumento do apetite sob estresse geralmente têm níveis mais baixos de grelina em repouso, o que pode levá-las a procurar alimentos altamente calóricos para sentir alívio (Sominsky & Spencer, 2014).

  • Leptina – reduz o apetite, mas o stress crónico pode levar à resistência à leptina, o que pode resultar em excessos alimentares.
  • Grelina – conhecida como a hormona da fome; os seus níveis aumentam durante o stress, estimulando a ingestão de alimentos.
  • Peptídeo YY (PYY) – reduz o apetite, mas os seus níveis podem ser afetados pelo stress. (Ans et al., 2018)

Stress crónico e aumento de peso

Quando uma pessoa é exposta ao stress durante um longo período, o corpo produz quantidades crescentes de cortisol. Isso pode levar ao aumento do apetite, acúmulo de gordura e maior risco de excesso de peso. O stress crónico também está associado a doenças metabólicas, como diabetes tipo 2. No entanto, é importante observar que, em alguns casos, o stress crónico pode levar à redução do apetite, principalmente em indivíduos com tendência à depressão (Sominsky & Spencer, 2014).

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Referências
Ans, A. H., Anjum, I., Satija, V., Inayat, A., Asghar, Z., Akram, I., & Shrestha, B. (2018, July 23). Neurohormonal regulation of appetite and its relationship with stress: A mini literature review. Cureus, 10(7), e3032. https://doi.org/10.7759/cureus.3032
Hill, D., Conner, M., Clancy, F., Moss, R., Wilding, S., Bristow, M., & O’Connor, D. B. (2022). Stress and eating behaviours in healthy adults: A systematic review and meta-analysis. Health Psychology Review, 16(2), 280–304. https://doi.org/10.1080/17437199.2021.1923406
Hsu, T., & Raposa, E. B. (2021). Effects of stress on eating behaviours in adolescents: A daily diary investigation. Psychology & Health, 36(2), 236–251. https://doi.org/10.1080/08870446.2020.1766041
Nakamura, C., Ishii, A., Matsuo, T., Ishida, R., Yamaguchi, T., Takada, K., Uji, M., & Yoshikawa, T. (2020). Neural effects of acute stress on appetite: A magnetoencephalography study. PLOS ONE, 15(1), e0228039. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0228039
Sominsky, L., & Spencer, S. J. (2014). Eating behavior and stress: A pathway to obesity. Frontiers in Psychology, 5, 434. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2014.00434

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