1.1. Introdução à estrutura cerebral e aos processos cognitivos
O cérebro é o órgão mais complexo do corpo humano e um dos sistemas biológicos mais avançados. Ele controla todas as funções do corpo, como movimentos, percepção do ambiente, emoções, linguagem, memória e pensamento. O cérebro é responsável pelos nossos pensamentos, sentimentos, memória e capacidade de aprendizagem. É composto por mais de 100 mil milhões de neurónios — células nervosas que enviam e processam informações. Estas células ajudam-nos a tomar decisões, aprender coisas novas e responder ao que está a acontecer à nossa volta. Para compreender melhor como funciona o cérebro, é útil aprender sobre a sua estrutura e funções cognitivas básicas (Maldonado & Alsayouri, 2023).
A estrutura básica do cérebro é o neurónio, que é uma célula nervosa que envia informações. Funciona como um fio que transmite sinais. Faz isso usando sinais elétricos e químicos.
Um neurónio tem três partes principais:
- Corpo celular (soma) – É o centro do neurónio, onde se encontra o núcleo da célula. Processa informações e mantém a célula viva.
- Dendritos – São «ramificações» finas que recebem sinais de outros neurónios e os enviam para o corpo celular. Pode pensar neles como antenas que captam sinais.
- Axão – É um longo «tubo» que transporta o sinal para outros neurónios ou músculos. O axão é coberto por uma bainha de mielina, que funciona como isolamento num fio elétrico, ajudando os sinais a viajar mais rapidamente.
Os neurónios transmitem informações de duas maneiras:
| Impulso elétrico (dentro do neurónio), ou seja, um sinal transmitido dentro da célula nervosa. | Transmissores químicos (entre neurónios) |
| Dentro do neurónio, os sinais são transmitidos na forma de um impulso elétrico, que viaja dos dendritos, passando pelo corpo celular, até o final do axónio. | ·Os neurónios não estão diretamente conectados – existe uma sinapse (um espaço microscópico) entre eles. ·Quando um impulso elétrico chega ao fim do axónio, ele desencadeia a liberação de neurotransmissores – substâncias químicas especiais. ·Essas substâncias químicas (neurotransmissores) atravessam o pequeno espaço entre as células e transmitem a informação adiante. |
Exemplo de como funciona um neurónio:
Se tocar em algo quente, os neurónios da sua pele enviam rapidamente um sinal ao seu cérebro. O cérebro processa a informação e envia um comando aos músculos da sua mão para a retirar. Tudo isto acontece numa fração de segundo! Graças a esta rede de neurónios conectados, podemos pensar, sentir, mover-nos e responder ao que nos rodeia.
1.2. Noções básicas sobre as regiões do cérebro
O cérebro pode ser dividido em três partes principais:
Matéria cinzenta e matéria branca – como funcionam?
O cérebro e a medula espinhal são compostos por matéria cinzenta e matéria branca, mas é a matéria cinzenta que desempenha um papel fundamental no funcionamento humano quotidiano (Mercadante & Tadi, 2023).
O que é a matéria cinzenta?
- É a camada externa do cérebro, responsável pelo pensamento, tomada de decisões e processamento de informações.
- Também é encontrado na medula espinhal e ajuda a enviar sinais aos músculos.
- A sua cor cinzenta deve-se ao grande número de corpos celulares nervosos (neurónios).
O que é a substância branca?
- A substância branca fica abaixo da substância cinzenta e conecta diferentes partes do cérebro, permitindo que as informações sejam transmitidas entre elas.
Como é que o cérebro se desenvolve?
Durante a adolescência, o cérebro passa por grandes mudanças que afetam a forma como pensamos, tomamos decisões e controlamos as emoções. Esse processo é importante para moldar uma personalidade madura e desenvolver capacidades intelectuais (Miguel-Hidalgo, 2013).
Durante a adolescência, a estrutura do cérebro muda:
✔️ Redução da matéria cinzenta – a matéria cinzenta contém os corpos das células nervosas e é responsável pelo processamento da informação. Durante a adolescência, o cérebro «poda» as conexões neurais não utilizadas, o que o ajuda a funcionar de forma mais eficiente.
✔️ Aumento da substância branca – a substância branca é composta por fibras nervosas cobertas por uma bainha de mielina, que acelera a transmissão de informações. Mais substância branca significa melhor comunicação entre diferentes áreas do cérebro (Miguel-Hidalgo, 2013).
Durante a adolescência, as capacidades cognitivas e o controlo emocional continuam a desenvolver-se:
✔️ A parte do cérebro responsável pelo pensamento e pelo planeamento (o córtex pré-frontal) desenvolve-se mais tarde do que a parte responsável pelas emoções (o sistema límbico). É por isso que os adolescentes podem reagir de forma mais impulsiva.
✔️ As conexões entre o córtex pré-frontal e o sistema límbico desenvolvem-se ao longo do tempo. À medida que essas conexões se fortalecem, o controlo emocional e a capacidade de tomar decisões racionais melhoram — mas esse processo continua até cerca dos 25 anos de idade.
Por isso, o cérebro adolescente é mais vulnerável ao vício em substâncias psicoativas (Miguel-Hidalgo, 2013).
A adolescência também é uma fase em que as hormonas afetam o cérebro:
✔️ As hormonas sexuais (testosterona, estrogénio) influenciam o desenvolvimento do cérebro, o que pode levar a diferenças no funcionamento do cérebro em meninos e meninas.
✔️ Maior sensibilidade às emoções e ao stress – O sistema nervoso dos adolescentes é mais reativo ao stress e às emoções fortes. Isso afeta o comportamento e a capacidade de lidar com situações difíceis (Miguel-Hidalgo, 2013).
A importância da adolescência para a aprendizagem e o desenvolvimento:
✔️ O cérebro adolescente é altamente plástico, o que significa que tem uma grande capacidade de aprender e adaptar-se. Este é o melhor momento para desenvolver novas competências, mas também uma altura em que hábitos negativos podem formar-se facilmente.
✔️ A adolescência é um período fundamental para a formação de hábitos, estilo de vida e personalidade. Por isso, é importante apoiar o desenvolvimento cognitivo, emocional e social dos jovens (Miguel-Hidalgo, 2013).
Que alterações cerebrais são típicas nas perturbações mentais?
Os distúrbios mentais estão frequentemente associados a alterações incomuns na estrutura e no funcionamento do cérebro. Algumas áreas do cérebro podem desenvolver-se de forma diferente do que em indivíduos saudáveis, o que pode afetar as emoções, o controlo dos impulsos e a tomada de decisões.
1. Principais áreas cerebrais envolvidas nos transtornos mentais
✔️ Córtex pré-frontal – responsável pelo raciocínio lógico, planeamento e controlo dos impulsos. Quando esta área está subativa, pode levar a problemas na tomada de decisões racionais e ao aumento da impulsividade.
✔️ Amígdala – desempenha um papel importante no processamento das emoções, especialmente o medo e o stress. A hiperatividade nesta área pode levar à ansiedade, enquanto a redução da atividade pode causar dificuldade em sentir emoções.
✔️ Estriado ventral – parte do sistema de recompensa do cérebro e importante para a experiência do prazer. Problemas nesta área podem aumentar o risco de dependência e causar dificuldades com a motivação (Miguel-Hidalgo, 2013).
2. Como as alterações cerebrais afetam o comportamento?
✔️ A hiperatividade em certas áreas do cérebro pode levar a reações emocionais mais fortes, níveis mais elevados de ansiedade, comportamento impulsivo ou problemas de autocontrolo.
✔️ A redução da atividade em algumas estruturas cerebrais pode causar dificuldade em controlar as emoções, apatia, dificuldade em tomar decisões e baixa tolerância ao stress.
✔️ O desenvolvimento anormal das conexões entre as áreas do cérebro pode tornar mais difícil para uma pessoa adaptar-se a diferentes situações, aumentando o risco de depressão, transtornos de ansiedade ou comportamentos de risco (Miguel-Hidalgo, 2013).
3. A importância da investigação cerebral no tratamento de perturbações mentais
Compreender essas alterações cerebrais ajuda cientistas e médicos a desenvolver tratamentos mais eficazes, como terapias psicológicas, medicamentos e técnicas que apoiam a neuroplasticidade (a capacidade do cérebro de se adaptar e mudar). Como resultado, pessoas que lutam contra problemas de saúde mental podem receber melhor apoio e cuidados mais eficazes (Miguel-Hidalgo, 2013).
Áreas emocionais do cérebro hiperativas ou hipoativas. Em adolescentes, a atividade da amígdala (que processa as emoções) pode ser mais intensa do que em crianças ou adultos.
Em indivíduos com transtornos de humor (como depressão), a atividade do estriado ventral (o centro de recompensa do cérebro) costuma ser muito baixa. Isso pode ajudar a explicar por que eles sentem falta de motivação e alegria (Miguel-Hidalgo, 2013).
Exemplo:
Pesquisas mostram que uma maior atividade no estriado ventral em adolescentes saudáveis está associada a emoções positivas e a um menor risco de depressão.
Córtex pré-frontal imaturo e falta de controlo emocional
A parte do cérebro responsável pelo pensamento e pelo planeamento desenvolve-se mais tarde do que a parte que lida com as emoções. É por isso que os adolescentes podem reagir impulsivamente. Em pessoas com perturbações mentais, esse desequilíbrio pode ser ainda mais forte, levando a comportamentos impulsivos, dificuldade em regular as emoções e tomadas de decisão arriscadas (Miguel-Hidalgo, 2013)..
Exemplo:
Pessoas com vícios geralmente apresentam redução da atividade no córtex pré-frontal, o que torna mais difícil para elas controlarem o seu comportamento e evitarem situações de risco. É por isso que o vício não deve ser visto como falta de força de vontade, mas como um distúrbio cerebral.
Alterações estruturais e funcionais nos transtornos mentais
A tabela abaixo apresenta as principais alterações estruturais e funcionais observadas em alguns transtornos mentais, como esquizofrenia, transtornos de ansiedade, depressão e dependência química. Para ajudar na compreensão, a tabela também inclui comentários com explicações.
| Perturbações | Que mudanças ocorrem na estrutura cerebral? (Mudanças estruturais) | Como isso afeta o comportamento e as emoções? (Alterações funcionais) | Comente com uma explicação |
| Esquizofrenia | Algumas áreas do cérebro (por exemplo, os lobos frontal e temporal) são menores. As conexões entre as células nervosas são mais fracas. | Dificuldade em pensar, delírios e alucinações (por exemplo, ouvir vozes), problemas emocionais. | O cérebro não funciona como uma «rede eficiente» – torna-se mais difícil compreender a realidade e podem surgir pensamentos ou vozes que não são reais. |
| Transtornos de ansiedade | A amígdala (área do cérebro envolvida no medo) está hiperativa. O córtex pré-frontal (responsável pelo controlo) está hipoativo. | A pessoa sente medo facilmente, tem dificuldade em acalmar a ansiedade e sente tensão. | O cérebro reage exageradamente ao stress, como se houvesse um perigo constante. A pessoa pode sentir uma preocupação ou inquietação contínua. |
| Depressão | O hipocampo (importante para a memória e as emoções) é menor. A amígdala está mais ativa. As estruturas na parte frontal do cérebro apresentam alterações. | Tristeza, falta de energia, dificuldade em concentrar-se, problemas emocionais. | O cérebro tem dificuldade em controlar as emoções – a pessoa sente-se triste, cansada e incapaz de se concentrar. |
| Adições | Conexões cerebrais prejudicadas (especialmente na substância branca), danos no hipocampo e no córtex pré-frontal. | Dificuldade em controlar o comportamento, impulsividade, tomada de decisões arriscadas. | Dificuldade em controlar o comportamento, impulsividade, tomada de decisões arriscadas. O «sistema de travagem» do cérebro está enfraquecido – a pessoa tem dificuldade em dizer «pare» e age impulsivamente, mesmo quando sabe que algo é prejudicial. |
Com base nas informações de: Miguel-Hidalgo JJ. Alterações estruturais e funcionais do cérebro em adolescentes com transtornos psiquiátricos. Revista Internacional de Medicina e Saúde do Adolescente. 2013;25(3):245–256.
ATIVIDADE INTERATIVA 5
1.3. Função cognitiva, por exemplo, memória, aprendizagem, concentração
O que é saúde cognitiva e como podemos cuidar dela?
A saúde cognitiva permite-nos viver de forma independente, manter relações sociais e lidar com os desafios do dia a dia. De acordo com Hendrie et al. (2006), a saúde cognitiva ajuda as pessoas a manterem-se independentes, a lidarem melhor com as doenças e a adaptarem-se às mudanças da vida.
Principais elementos da saúde cognitiva:
✔️ Capacidades mentais – tais como tomada de decisões e resolução de problemas
✔️ Competências adquiridas – conhecimentos e experiência acumulados ao longo do tempo
✔️ Aplicação prática das competências aprendidas – utilização dos conhecimentos para realizar tarefas quotidianas (Puri et al., 2023).
Como é que o cérebro apoia a saúde cognitiva?
O cérebro é responsável por:
• Pensamento e memória: ajuda-nos a aprender e a lembrar informações
• Funções motoras: controla os movimentos do corpo e o equilíbrio
• Funções emocionais: ajuda-nos a compreender e a gerir as emoções
• Funções sensoriais: permite-nos sentir e responder aos estímulos do ambiente
Um cérebro saudável ajuda-nos a adaptar-nos a diferentes situações, a gerir as emoções e a agir de forma independente (Puri et al., 2023).
O que afeta a saúde cognitiva?
Algumas alterações no cérebro são naturais, mas existem fatores que podem melhorar ou piorar a saúde cognitiva:
🔹Fatores incontroláveis – por exemplo, idade, genética e doenças
🔹Fatores controláveis:
✔️ Uma dieta saudável e atividade física – apoiam o funcionamento do cérebro.
✔️ Relações sociais – ajudam a manter a agilidade mental.
✔️ Atividade intelectual – como aprender coisas novas ou resolver quebra-cabeças.
✔️ Evitar fumar e o consumo excessivo de álcool – reduz o risco de problemas cognitivos (Puri et al., 2023).
Pessoas que levam um estilo de vida ativo e cuidam da sua saúde mental podem manter uma boa memória e capacidade cognitiva por mais tempo, mesmo que o seu cérebro passe por mudanças graduais. Embora o envelhecimento cerebral seja um processo natural, um estilo de vida saudável, atividade mental e envolvimento social podem melhorar e prolongar a função cognitiva, além de reduzir o risco de doenças neurodegenerativas (Puri et al., 2023).
Funções cognitivas
As funções cognitivas são os processos que nos permitem aprender, lembrar informações, concentrar-nos e resolver problemas. Aqui estão as mais importantes:
1. Memória: A memória permite-nos armazenar e recordar informações. Ela é dividida em…
Exemplo:
Depois de preparar várias vezes um pequeno-almoço saudável (como aveia com frutas), já não precisa de consultar a receita — basta lembrar-se de como fazê-lo. Graças a esse tipo de memória, também se lembra das regras gerais de uma alimentação saudável.
Exemplo:
Depois de preparar várias vezes um pequeno-almoço saudável (como aveia com frutas), já não precisa de consultar a receita — basta lembrar-se de como fazê-lo. Graças a esse tipo de memória, também se lembra das regras gerais de uma alimentação saudável.
Exemplo:
Você faz café ou chá todas as manhãs sem pensar em cada passo. Você sabe exatamente quanta água ferver, onde está a chávena e como prepará-la — as suas mãos simplesmente fazem isso. Isso é a memória procedural em ação.
2. Aprendizagem: A aprendizagem é o processo de aquisição de novos conhecimentos e competências. O nosso cérebro muda como resultado das experiências. Isto é chamado de plasticidade cerebral. A aprendizagem regular fortalece as conexões entre os neurónios, o que facilita a memorização das coisas.
Exemplo: Se praticarmos o vocabulário de uma língua estrangeira todos os dias, o nosso cérebro aprende e reconhece as palavras mais rapidamente.
Exemplo:
Você faz café ou chá todas as manhãs sem pensar em cada passo. Você sabe exatamente quanta água ferver, onde está a chávena e como prepará-la — as suas mãos simplesmente fazem isso. Isso é a memória procedural em ação.
3. Concentração
Concentração é a capacidade de focar a atenção numa tarefa específica. É essencial para uma aprendizagem e um trabalho eficazes. Muitos fatores afetam a atenção, como o stress, o ruído ou a quantidade de sono.
Como melhorar a concentração?
✔️ Limite as distrações (por exemplo, telemóvel, redes sociais)
✔️ Faça pausas – o cérebro precisa de descanso para absorver informações
✔️ Pratique a atenção plena – ajuda a melhorar o foco
✔️ Preste atenção para dormir o suficiente – 8 horas
ATIVIDADE INTERATIVA 6
| Referências |
| Maldonado, K. A., & Alsayouri, K. (2023). Physiology, brain. In StatPearls. StatPearls Publishing. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK551718/ Mercadante, A. A., & Tadi, P. (2023). Neuroanatomy, gray matter. In StatPearls. StatPearls Publishing. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK538304/ LeDoux, J. E. (2012). Evolution of human emotion: A view through fear. Progress in Brain Research, 195, 431–442. https://doi.org/10.1016/B978-0-444-53860-4.00021-0 Miguel-Hidalgo, J. J. (2013). Brain structural and functional changes in adolescents with psychiatric disorders. International Journal of Adolescent Medicine and Health, 25(3), 245–256. https://doi.org/10.1515/ijamh-2013-0058 Hendrie, H. C., Albert, M. S., Butters, M. A., Gao, S., Knopman, D. S., Launer, L. J., et al. (2006). The NIH cognitive and emotional health project: Report of the critical evaluation study committee. Alzheimer’s & Dementia, 2(1), 12–32. https://doi.org/10.1016/j.jalz.2005.11.004 Puri, S., Shaheen, M., & Grover, B. (2023). Nutrition and cognitive health: A life course approach. Frontiers in Public Health, 11, 1023907. https://doi.org/10.3389/fpubh.2023.1023907 |
